Amor nos tempos do viagra


— Tu acredita em amor?
— Namor? O Prícipe Submarino? Sim. Em quem não acredito é nos Super Gêmeos. Pra mim, trata-se dos super-heróis mais idiotas que alguém poderia criar. “Forma de um balde de gelo! Forma de água pra entrar no balde de gelo!” Ah, vão tomar no…
— Não, cara, amor. Tô falando de amor. Camões, Shakespeare, essas coisas.
— Bom, acreditar, acredito. Mas, na minha idade, já tenho experiência suficiente pra saber que o amor por si só não vale nada. Tem que vir acompanhado de coisas igualmente importantes.
— Carinho, afeto, compreensão, companheirismo…
— Viagra…
— Ih, tu tá nessa?
— Não é que eu esteja. Tecnicamente, não tô. Mas é como já dizia Wittgenstein: todo mundo precisa de uma ajudinha pra subir ladeira.
— Wittgenstein nunca disse isso.
— Como é que tu sabe? Tu lê alemão? Tu não lê alemão. Wittgenstein escreveu coisas que o próprio Wittgenstein não entendeu. Embora a academia já tenha entendido tudo.
— Não desvia o assunto. Tu anda tomando Viagra?
— Não é que ande tomando Viagra. Digamos que uso socialmente, em momentos de maior aperto.
— Exemplo.
— Loirinha peituda.
— Que é que tem?
— Tu já brochou com uma loirinha peituda, com coxas perfeitas, tudo no lugar?
— Nunca, pelo simples motivo de que a única loirinha peituda com quem saí acabei descobrindo se chamar Oswaldão. Nosso encontro durou o prazo de uma apalpadela e me gerou tal aversão ao silicone que até hoje não consigo ouvir o nome de Pitanguy sem entortar o pescoço e piscar o olho duas vezes, dizendo “Babalu, babalu.”
— Pois eu lhe digo que já brochei e o trauma é tão grande que, no dia seguinte, você quer se enforcar com uma scarf.
— O que é uma scarf?
— Não sei, por isso mesmo não me matei. Mas o sentimento é péssimo. De maneira que agora o Viagra fica ali na carteira, até mesmo por uma questão de civismo.
— Essa, nem com todo o Wittgenstein. Questão de civismo?
— Pensa rápido, Jurandir. Para me lembrar que eu sou brasileiro e não desisto nunca. Agora, desembucha. Quem é que tás comendo?
— Quanta sutileza! Te falei que é amor, rapaz.
— Sem eufemismo, Jurandir.
— Isso mesmo, sem eufemismo, sem bestialismo, sem nenhuma dessas safadezas. Amor, ponto final. Tô apaixonado, cara.
— E por quem, Jurandir? Eu conheço? Já comi?
— Tu é um bárbaro, rapaz, um selvagem. Agora escuta e presta atenção, aprende um pouco de poesia: fique sabendo que, depois de trinta anos de casado, tô apaixonado de novo por minha própria mulher.
— (Passa meia hora rindo.) Jurandir…
— Que é que foi?
— Jurandir… (Ri mais um pouco.)
— Que é?
— Jurandir… Tu é corno de tu mesmo, Jurandir! (Ri ainda mais.)
— Ah, vá…

Escrito por marconi leal
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